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  • Ovos Ocos

    Ovos Ocos

    “Eu não gosto de quadro em casa, acho inútil”, disse um cara com cara de divorciado e com uma corrente de time no pescoço, almoçando na mesa ao lado. Imagino então que o brasão corinthiano estrategicamente visível em seu peito aberto deva possuir alguma serventia que eu, míope de criatividade, não consigo enxergar, alguma utilidade diferente dos pingentes nas coleiras de cães, que servem para serem identificados caso fujam por um portão distraído. 

    Certa vez meu pai me viu escrevendo uma crônica e perguntou “isso aí dá dinheiro?”, logo em seguida voltando a assistir ao jogo do seu time do coração, time cuja torcida lota estádios, como formigas em direção a um formigueiro, e sai de mãos abanando ao fim dos espetáculos. Gostaria sim de lhe dizer que estou construindo uma startup, afinal hoje em dia tal ideia é mais aceitável  – e está na moda – do que fazer literatura, mas não, pai, estou escrevendo uma crônica semanal. 

    Olhando por outro lado, gerei planilhas que ninguém jamais leu, fui a lugares que não fazia nenhuma questão e aumentei logos simplesmente porque sim. Afinal, ovos, mesmo que ocos, devem ter a sua utilidade. Assim como o misterioso sentido da corrente do começo desta crônica, ela deve estar lá; eu é que não tenho a capacidade de enxergá-la.

    A minha miopia é tamanha que, cada vez que termino uma crônica me sinto tão feliz como quando vi pela tv o gol de bicicleta de Ibrahimovìc na seleção da Inglaterra ou como quando penduro na parede o desenho do Batman de meu filho, mesmo que isso não me garanta cinco dígitos na conta.