Me lembro da sensação de, aos cinco anos, minha mãe puxando meu braço aos trancos para atravessarmos uma rua e entrarmos numa loja de roupas cuja fachada era uma ilustração de uma mulher que tinha algo de bruxa, de troça, dado o seu olhar de soslaio, como se fosse a amante de alguém conhecido. Curiosamente, alguns anos depois encontrei a mesma mulher novamente me encarando, mas agora impressa em um livro de artes da quinta série, onde descobri que se chamava Mona Lisa, a pintura mais famosa do mundo e pintada por Leonardo da Vinci, que a levou debaixo de seus braços até sua morte, sem sequer suspeitar que no futuro sua pequena gravura encheria salas lotadas, valeria quase um bilhão de dólares e teria uma proteção de vidro à prova de balas ou sopas. Me lembro também de uma outra obra de Leonardo que vi não em fachadas, museus ou livros, mas na casa de minha avó materna, com Jesus sentado no centro de uma grande mesa enquanto seus braços esticados pareciam reclamar da toalha de mesa manchada, enquanto apóstolos estupefatos à sua volta fofocavam sobre a falta de modos do filho de Deus. E em letras serifadas, “A Santa Ceia, 1498”.
Anos depois, assim como muitos, me impressionei com a aura de engenhosidade e mistério em torno de Da Vinci no filme “O Código da Vinci”, e então dei de descobrir mais detalhes sobre ele e suas obras, culminando na descoberta de que além de pintor, Leonardo foi praticamente a lista de cursos de uma universidade inteira, sendo precursor de áreas como física, anatomia, balística e talvez até de crônicas, sabe lá Deus. Desde então, tenho comprado todo e qualquer livro que encontro sobre ele, numa inocência infantil de que ao ler sobre seus feitos eu poderia me tornar tão múltiplo quanto o italiano. E, realmente, tal prática surtiu algum efeito, já que posso afirmar que inspirado pelo mestre, aprendi a programar, criar roteiros, animações, objetos em 3D, logos, editar vídeos, fazer desenhos feios e enviar crônicas toda sexta-feira, mesmo que o meu teto de capacidade seja fazê-los todos pela metade, assim como bem sabemos que uma cobra falsa coral jamais será venenosa simplesmente por ter força de vontade.
Às vezes me pego pensando na possibilidade de Leonardo vivendo em nossos tempos, e acabo concluindo que seria uma pena: gênios são o reflexo de seu próprio tempo e espaço, e o equivalente a uma mistura profana de Kevin Mitnick, Christopher Nolan, Hideo Kojima, Paul Rand, José Saramago e Pablo Picasso hoje estaria sendo puxado pelo braço aos trancos para reuniões desnecessárias das 08h às 18h para fazer o que gosta apenas em suas pouquíssimas horas vagas.

